No decurso do Verão de 1979 fruía eu diariamente a agradável companhia de um dos meus melhores amigos, José Machado, cançonetista, músico, compositor, intérprete e acompanhador de Fado em viola clássica, infelizmente falecido em Paris em Maio de 2007. Por que então perpassava por um nostálgico período em relação à minha estada em França, ocorreu-me traduzir a ideia para a ambiência portuguesa, por diferentes palavras e imagens, da conhecidíssima canção francesa «En Chantant», interpretada por Michel Sardou, cujos versos e música no original são, respectivamente, de Pierre Delanoe e Toto Cutugno.

Obtido e dominado o desiderato, o José Machado, aproveitando os momentos azados nos serões fadistas da noite portuense, empolgava normalmente a diversa assistência sempre que apresentava a novidade em português. Curiosamente, seduzido pelos relatos que eu lhe descrevia sobre a minha vida em França, nos quais incluía os mágicos convívios que tive com Léo Ferré, o José Machado decidiu-se, cerca de cinco anos adiante, emigrar para a Cidade-Luz.

Bom, decorridos mais ou menos vinte-e-cinco anos, depara-se-me um novo afecto artístico e uma sólida amizade na pessoa de Nelson Duarte, um experimentadíssimo cançonetista que, após um intervalo de 15 anos, regressou à música com decidida e decisiva devoção pelas lides do Fado.

Proponho pois publicamente ao Nelson, ainda que tenha de ser eu a inspirar a musicalidade fadista para os versos a interpretar, que ambos nos empenhemos na construção de um «Fado a Cantar». Diz-se que a guitarra portuguesa deriva do alaúde, cordofone quiçá de origem indiana. Afinal, tudo deriva de tudo por muito que o nada persista na criação do vazio. «Fado a Cantar», até parece um pleonasmo, pois então não parece? Se assim for considerado pelos apreços mais lineares, um pleonasmo em certos casos pode dar mais colorido, vigor, graça e estilo ao sentido expresso. = TdG

Prezado amigo Nelson, vamos lá então tentar fazer tudo quanto nos restar para fazer a cantar...


FADO A CANTAR



I

Em pequeno se chorava
minha mãe só me calava
a cantar...

Com mil sonhos na sacola
a sonhar fui para a escola
a cantar...

Minha mestra, atarefada,
ensinou-me a tabuada
a cantar...

E as lições do amor
aprendi-as eu de cór
a cantar.

A vida é mais engraçada
e menos desesperada
a cantar.
II

A primeira namorada
que tive foi conquistada
a cantar...

Quando ela se despiu,
eu sorri e ela sorriu
a cantar...

Amor, contente da vida,
fiz três vezes de seguida
a cantar...

De manhã, quando acabou,
também ela me deixou
a cantar.

O amor é mais engraçado
e menos desesperado
a cantar.
III

Os homens, se obrigados,
vão à guerra, são soldados,
a cantar...

De flor na espingarda
a vitória é celebrada
a cantar...

Rezamos a Jeová,
A Deus, Buda e Alá
a cantar...

Por diferentes opiniões
fazemos as revoluções
a cantar.

O mundo é mais engraçado
e menos desesperado
a cantar.
IV

Quando eu morrer enfim
que seja no meu jardim
a cantar...

Se minha mulher chorar
meus filhos prá consolar
a cantar...

Virão os novos amigos
com os velhos inimigos
a cantar...

E até meu testamento
será lido pelo vento
a cantar.

A morte é mais engraçada
e menos desesperada
a cantar!...


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